Fernanda, 29, ficou surpresa quando se encontrou pessoalmente com um rapaz que conheceu em um aplicativo de relacionamento. “Me senti enganada, de certa forma, porque achei que ele fosse igual ao que era nas fotos.”
Ela, cujo nome verdadeiro será preservado a seu pedido, acredita que o pretendente usou recursos de IA (inteligência artificial) para disfarçar a aparência. “Era o mesmo homem das fotos, mas calvo.”
Fernanda deixa claro: não tem nada contra homens calvos. “O meu problema é com mentira. A pessoa tem que se aceitar como ela é. Isso é uma distorção da realidade”, afirma. O encontro, avalia, não foi ruim. “Mas eu não quis um segundo.”
O uso de inteligência artificial se tornou um problema para muitos solteiros que usam essas plataformas de namoro.
“Eu tenho visto muitos perfis com IA ultimamente. Me incomoda e me entristece. É como se eu estivesse falando com um fake baseado em uma realidade que não existe”, diz o designer gráfico Rodrigo Seivald, 28.
Essas ferramentas podem despertar o desinteresse e fazer com que a interação não evolua para um primeiro encontro. “Não interajo com essas pessoas porque não dá para dizer o que há de real nesses perfis”, afirma Seivald.
Uma pesquisa com 5 mil solteiros dos Estados Unidos, feita em 2025 pelo Kinsey Institute e pela Match Group, dona do Tinder, mostrou que 26% dos entrevistados usavam algum tipo de inteligência artificial para interagir nas redes.
O número representou uma alta de mais de 300% em relação à mesma pesquisa feita no anterior.
Esse levantamento considerou o uso de IA para deixar o perfil mais atraente, na elaboração de respostas interessantes e até no teste de compatibilidade com o pretendente.
“Se usar isso me faz ter zero interesse”, diz o arquiteto Matthew Garces, 26.
Para a psicanalista Carol Tilkian, esses recursos podem aumentar a insegurança das pessoas, que cada vez mais tentam acertar em fotos ou mensagens. “É perigoso porque você terceiriza isso para a IA e pressupõe que há uma foto que gera mais encantamento ou uma frase que gera mais conversa.”
As imagens diferentes da realidade não são algo novo, já que o uso de edições nas próprias fotos é antigo. “A diferença é que agora a pessoa recorre à IA para buscar o melhor jeito de se mostrar. É a terceirização desse olhar do que é belo e desejável”, afirma Tilkian.
O fácil acesso a programas de inteligência artificial reforça o uso dessas ferramentas em imagens que depois são exportadas para os aplicativos de namoro, avalia a pesquisadora Mayane Batista, que estuda o uso desse recurso tecnológico na sociedade.
“Atualmente é mais difícil diferenciar o que é IA porque antes era algo muito básico. Hoje, as coisas são mais profissionais por causa desses melhoramentos da própria ferramenta para compreender o ideal que a pessoa está esperando”, diz.
Esse novo cenário sobre a inteligência artificial ocorre em paralelo àquilo que estudiosos têm definido como uma fadiga digital dos aplicativos de relacionamento, o que faz com que a interação não evolua para um encontro real.
“Acho que esse uso vem também da exaustão das pessoas de entrarem nos aplicativos e a conversa não avançar. Mas penso que quanto mais uso de IA, mais inseguras as pessoas vão ficar para um encontro ao vivo”, diz Carol.
‘Aprimorar a experiência’
Nos últimos anos, as plataformas de namoro adotaram a inteligência artificial em tarefas como sugestões para um perfil mais atraente, dicas de biografias, ajuda para selecionar fotos e apoio para mensagens curtas na interação com pretendentes.
Em contrapartida, essas plataformas passaram a criar medidas para tentar coibir perfis inteiramente criados por IA. Há opções de denúncias específicas para esses casos.
“O próximo capítulo da IA não deve ser sobre substituir a conexão humana, deve ser sobre fortalecê-la”, diz o Bumble, em nota à reportagem.
“Para o happn, a IA deve aprimorar a experiência de se relacionar tornando-a mais segura e fluida, e nunca substituir a autenticidade ou permitir que a tecnologia fale ou se apresente em nome de alguém. A escolha final, e cada conexão significativa, deve sempre permanecer humana”, diz o happn, em nota à Folha.
O Tinder e o Badoo não responderam aos questionamentos da reportagem.
Entre as críticas sobre o uso de inteligência artificial nesses aplicativos está a falta de rótulos que apontem quando uma foto passou por alguma alteração.
Para quem viveu uma experiência frustrada, resta o aprendizado. No caso de Fernanda, ela começou a pedir todas as redes sociais dos novos pretendentes e ficou mais atenta às alterações nas imagens.
“Tenho visto muitos homens usando IA no perfil. No meio das fotos, em geral, quase sempre tem uma”, afirma.






