Ao escolher o avanço da inteligência artificial como tema central de sua primeira encíclica, o papa Leão 14, eleito há um ano, posicionou a Igreja Católica em um dos debates mais importantes deste século. Para ele, a digitalização, a IA e a robótica são as grandes questões dos nossos tempos, e precisam ser discutidas à luz do “paradigma tecnocrático”: reconhecer os avanços tecnológicos sem perder a essência humana.
O texto provocou diversas análises na última quinzena, mas essa não foi a primeira vez que o sumo pontífice abordou tal tema. Em novembro, no congresso “A Dignidade das Crianças e dos Adolescentes na Era da Inteligência Artificial”, no Vaticano, ele já havia discursado por uma “educação digital ética” voltada especificamente à proteção e à segurança das crianças e dos adolescentes.
A encíclica, por agora, aprofunda essa discussão em diversas frentes, mas sem desprezar a centralidade da educação nesse processo. Mesmo sendo um documento voltado essencialmente aos fiéis, ele transcende o âmbito do catolicismo por seu teor crítico e racional ao clamar por uma “aliança educativa para a era digital”.
Ainda que não utilize explicitamente o termo educação midiática, o texto de Leão 14 reconhece, em diversos momentos, a relevância dela no contexto contemporâneo em que estamos inseridos, mesmo que o tempo de desenvolvimento de competências e habilidades seja bem mais lento que o das mudanças tecnológicas.
De fato, o desenvolvimento da educação digital e midiática a nível mundial ainda caminha a passos lentos. Um levantamento da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) revelou que, entre os 194 países integrantes da entidade, menos de 10% deles contam com diretrizes próprias voltadas a essa temática, enquanto 22% não a incorporam ao processo educacional nem preveem a sua abordagem nos currículos escolares nacionais.
Tais percentuais precisam urgentemente aumentar, mesmo que existam desigualdades profundas entre os sistemas nacionais de ensino. Mas não apenas isso: é preciso olhar também para os públicos que não estão mais em idade escolar. Como educar digital e midiaticamente adultos e idosos, considerando diferentes trajetórias, classes sociais e níveis de acesso à cultura e à informação? Essa é uma pergunta que todos os governos democráticos já deveriam estar respondendo.
Isso porque, se “toda a tecnologia educa quem a utiliza”, como afirma corretamente o documento papal, é preciso assumir que automatizamos o uso de todas essas ferramentas, muitas vezes sem a criticidade, a responsabilidade, a ética e a fluência necessárias para compreender seus vieses e implicações.
O alerta de Leão 14 independe de fé religiosa ou nacionalidade. É um alerta humanitário. É claro que esse deveria ser um esforço coletivo, que envolva empresas, governos, sociedade civil e demais atores relevantes nessa conjuntura. Mas “desarmar” a inteligência artificial, como pede a encíclica, também depende de (nos) educarmos sobre ela.







