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Cotidiano

Jornalista humilhada abandona programa ao vivo

Jornalista humilhada abandona programa ao vivo
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 19/07/2026 às 11:50

“Eu prefiro comer merda.” Foi com essa frase que Marta Gómez Montero, comentarista do Malas Lenguas Noche, programa de debate político da emissora espanhola RTVE, abandonou o estúdio ao vivo no último dia 11.

A bancada discutia uma declaração do político conservador Alberto Núñez Feijóo sobre as licenças médicas no trabalho. Visivelmente tensa, Marta tentava articular seus argumentos com um nervosismo de quem já não discute apenas o assunto em pauta. O apresentador Jesús Cintora a interrompia com provocações e gestos de impaciência.

“Não vou responder, Jesús, você não vai me humilhar de novo”, disse ela com voz embargada. “Suportei isso para pagar as contas, suportei isso pelos meus filhos, mas não aguento mais.” Em seguida, fez uma referência ao coronel de García Márquez que responde à fome da mulher com a única coisa que tem para lhe oferecer: merda —e adaptou a citação: “Pois eu, Cintora, prefiro comer merda”. Arrancou o microfone da lapela, recolheu suas anotações e deixou o estúdio chorando.

Cintora não perdeu a pose. “O que houve, Marta? Ela decidiu ir embora”, disse ele com uma frieza de quem relata uma falha técnica, não uma acusação pública de humilhação recorrente. E arrematou, em tom de desdém: “Ella sabrá”.

No dia seguinte veio o ritual da reparação. Primeiro foi o apresentador, em nota, chamando-a de “boa jornalista e colega”. Depois, o presidente da RTVE se desculpando publicamente em nome da casa.

Então veio a parte mais desconcertante. Marta voltou. Voltou dois dias depois de dizer que preferia comer merda. Voltou a se sentar à mesa de quem, em rede nacional, acusou de assédio moral.

Esse é o ponto mais intrigante. Por que ela chorou, qualquer pessoa entende, mesmo quem se esforce para não entender. A pergunta é por que voltou. Dizer que o pedido de desculpas resolveu a situação é uma explicação conveniente demais, não convence.

O retorno de Marta não apaga a acusação. Pode até reforçá-la. Revela a força de uma estrutura que faz uma pessoa chegar ao limite e, dias depois, reaparecer, sorrindo, fazendo a engrenagem voltar a girar.

Marta disse que suportava a situação pelas contas, pelos filhos. Disse que aguentava porque precisava do dinheiro —mulher, e já não jovem, num ofício que descarta as duas coisas com a mesma naturalidade. A frase já traz uma explicação.

O retorno deu à emissora, de bandeja, a absolvição perfeita. Se ela voltou, aparentemente recomposta, talvez não tenha sido tão grave. Se se sentou novamente ao lado de Cintora, talvez tudo não passasse de uma explosão emocional —dela, é claro. Se voltou ao programa, o “mal-entendido” estaria superado.

Há algo muito familiar nesse ciclo. É a história conhecida de qualquer relação de poder que precisa se manter funcionando apesar de si mesma.

A mulher levada ao limite é a descontrolada; o homem que participa da escalada é preservado pela aparência de serenidade. Ela perde a compostura; ele nunca precisou tê-la, porque está no comando. Ela precisa explicar a saída e justificar a volta; ele não precisa explicar nada.

Quem deve sair de cena é quem humilha. Mas, nesse caso, foi Marta quem pagou a conta. “Ella sabrá” —problema dela—, disse o próprio Cintora. No fim, o problema é quase sempre delas, enquanto o homem fica com a bancada.

São quase três décadas do século 21 e o roteiro não mudou uma linha.

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Fonte: redir.folha.com.br
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