Idiomas
A Língua Nativa como Matriz de Pensamento e Resistência

Quando a língua materna se torna chave para identidade, memória e vitória
Em 2011, o arquiteto e artista Ai Weiwei foi preso e torturado após expor a falta de respeito aos direitos humanos e por criticar a ausência de liberdade de expressão dos chineses. Como punição, foi colocado em isolamento e impedido de viajar.
Quando o governo lhe concedeu o passaporte de volta, em meados de 2015, Ai decidiu viver na Europa, permeando lugares como Portugal, Alemanha e Reino Unido. Isso sem pisar um pé na China, seu país de origem.
Apenas em dezembro de 2025 que Ai Weiwei correu o risco e se aventurou a retornar para casa — para uma passagem curta de 3 semanas. Dentre visitas e recordações, declarou em seu Instagram:
“Para os imigrantes, a maior perda não é a riqueza, a solidão ou um estilo de vida desconhecido, mas a perda da troca linguística“.
Falamos nossa língua nativa todos os dias, mas já parou para refletir sobre o poder invisível que ela exerce sobre nossa mente e identidade?

Em “A Distinção”, Pierre Bourdieu revela o conceito de capital linguístico, mostrando como a língua nativa reproduz classe e identidade. A supressão deste habitus – modos de pensar e agir que refletem a posição de um indivíduo – ditam uma dominação simbólica de um grupo sobre outro, marginalizando minorias.
Uma língua carrega identidade, memória e a cultura de centenas de gerações. Mais do que um meio de comunicação, é um lugar emocional – com formas distintas de expressão e pensamento. Quando, então, essa riqueza é suprimida, sufocada e subjugada, é como se uma parte da alteridade de seus falantes morresse junto.
Ao usarmos uma língua estrangeira para nos manifestar, traduzimos o mundo antes de reagirmos a ele. Isso implica numa vigilância e insegurança constante, revelando um medo de não ser compreendido ou escutado. Comunicar-se na língua nativa é automático: nela pensamos, ironizamos, ficamos irritados e nos emocionamos sem esforço.
Além de ser um código, podemos pensar num idioma como uma matriz de pensamento e, especialmente, resistência.

Para além de Ai Weiwei, outras figuras também já expressaram sua concordância com o impacto da língua materna em cenários estrangeiros. O porto riquenho Bad Bunny, ao discursar no Grammy ontem (01/02), intercalou o inglês com o espanhol para homenagear seu país de origem e protestar contra a ICE – Serviço de Imagração e Alfândega que tem tratado brutalmente imigrantes nos Estados Unidos.
Nas palavras do cantor “Puerto Rico, acredite em mim quando eu te digo: somos muito maiores que 100 por 35. E não há nada que não possamos alcançar.”






