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Opinião: Onde a mentira aprendeu a morar

Opinião: Onde a mentira aprendeu a morar
Crédito/ Reprodução Jametleme Reskp
Publicado em 01/02/2026 às 18:04

Crônica/ por jornalista Patrícia Klaic

A mentira não chegou de repente.

Ela nunca chega.

Veio como quem pede abrigo por uma noite. Trouxe poucas palavras, quase nenhuma bagagem. Não parecia perigosa. Pelo contrário: oferecia descanso. Prometia alívio. Disse que era só até as coisas se acertarem.

E ficou.

No começo, era fácil não notar sua presença. Um desvio aqui, um silêncio ali. Pequenas concessões feitas para evitar conflitos maiores. Afinal, ninguém enfrenta a própria verdade todos os dias sem se ferir um pouco.

Escrevi, algum tempo atrás, sobre o filho do Pai da Mentira. Alguns entenderam. Outros passaram os olhos. Houve quem se sentisse acusado. Mas não havia acusação. Havia espelho. Falava dos hábitos diários — desses que se repetem até se tornarem parte da paisagem.

A Bíblia diz que a mentira cega. Não de uma vez, mas aos poucos. Primeiro apaga os contornos. Depois confunde os caminhos. Até que a verdade deixa de ser um ponto fixo e vira uma lembrança distante.

Mentir para o outro sempre parece simples. O difícil é sustentar a história. A mentira exige coerência, memória, juramentos silenciosos. Com o tempo, quem mente passa a viver para mantê-la de pé. Trabalha para ela. Defende-a. Torna-se seu refém.

O momento mais delicado é quando a mentira atravessa o limite e passa a ser dita para dentro.

Por medo ou cansaço, acredita-se. A mentira aprende a falar com voz mansa. Organiza-se como verdade. Ganha lógica, sentido, rotina. Tudo parece claro demais. Seguro demais. Até que o tempo cobra seu preço.

Chega o dia em que já não se sabe o que é verdade. A mentira, agora madura, ocupa espaço. Torna-se única. Absoluta. Talvez a pior de todas. E então surgem as perguntas que não pedem resposta, apenas coragem.

Em que momento perdi o controle da minha própria vida?

Quando foi que esse monstro ganhou nome, casa e poder?

Começa a luta interna. Uma briga silenciosa entre o que somos e o que fingimos ser. O peso na consciência denuncia o que evitamos: os desafios não enfrentados, as verdades adiadas, a realidade trocada por uma versão mais confortável.

Criamos, assim, um mundo paralelo. Incompatível com o presente, mas habitável o suficiente para permanecer. Até que não é mais.

Toda mentira que vira verdade cobra seu preço. E cobra caro.

Mas nenhuma crônica termina no desespero. Termina na escolha. O livro mais lido do mundo, “Bíblia” lembra que a verdade não é apenas um conceito — é um caminho. E caminho exige passo.

Talvez a liberdade comece quando se desmonta a mentira, mesmo com as mãos tremendo. Porque a verdade não promete conforto imediato, mas devolve algo essencial: o comando da própria vida.

E, no fim, só isso importa.

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