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Mortes: Herói da Segunda Guerra Mundial viveu até os 108 anos

Mortes: Herói da Segunda Guerra Mundial viveu até os 108 anos
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 06/06/2026 às 15:05

Em abril de 1945, durante o ataque a Montese, batalha estratégica da Campanha da Itália, o segundo-sargento Nestor da Silva, 27, e seu grupo de 16 homens da Força Expedicionária Brasileira fizeram 18 prisioneiros alemães. Sem poder tomar conta de todos, Nestor conduziu os alemães para uma cratera, entregou granadas de mão a dois cabos e ordenou: “Se algum deles quiser subir, aí vocês não tenham complacência, joguem as granadas aí dentro e temos conversado.”

Não foi preciso usar as granadas. E naquela madrugada, com Montese praticamente tomada pelas tropas brasileiras, o telefone de manivela tocou no posto avançado: o então general (depois marechal) Mascarenhas de Morais, comandante da FEB, promovera Nestor a segundo-tenente, por bravura.

Como muitos que lutaram contra o fascismo, Nestor da Silva gostava de contar as histórias de soldado, mas não se gabava de seus feitos. Quem via aquele homem, já centenário, sair do apartamento na Asa Sul para ir ao banco, à banca de jornais ou à paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, não imaginava estar diante de um dos últimos heróis da Segunda Guerra Mundial.

Filho do agricultor João da Cruz e Silva e de Luiza Vitória de Oliveira, Nestor nasceu em 13 de julho de 1917 em Lagoa Santa, então distante freguesia rural da recém-inaugurada Belo Horizonte. Voluntário, assentou praça na capital mineira em 1938, impressionado depois de ver o 10º Regimento de Infantaria marchando em ordem unida.

Em 1944, já como segundo-sargento, embarcou para Nápoles com a FEB. Na Itália, além da sangrenta batalha vencida pelos Aliados em Montese, também participou de combates em Gallicano, Monte Castello e Castelnuovo.

Antes da luta, Nestor rezava muito. Atribuía à fé a coragem para enfrentar as batalhas. “Às vezes as pessoas questionavam ele rezar antes de um combate, se não era fraqueza. E ele dava a resposta”, conta a pedagoga Márcia, uma das filhas. Escreveu até um artigo sobre isso, intitulado “Depoimento de um ex-expedicionário sobre o poder da oração na guerra”.

De volta da guerra, fez o curso de oficiais da reserva da Escola Militar do Rio. Em 1949, casou-se com a noiva de longa data, Niva, mineira de São João del-Rei. Foram 76 anos de casamento até a morte da esposa, no ano passado, aos 97 anos.

Sempre em busca de novos desafios, Nestor decidiu matricular-se no curso de paraquedista militar aos 47 anos, idade incomum para a função. Em 1966, concluiu o curso de mestre de salto. Foi transferido para a reserva em 1972, quando era tenente-coronel no Estado-Maior do Exército, em Brasília, onde continuou a morar.

Na reserva, não parou de trabalhar. Ocupou cargos no antigo Ministério do Interior e na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Em 2013, recebeu de Dilma Rousseff (PT), no Palácio do Planalto, a medalha da Ordem do Mérito Nacional. Participava todos os anos, medalhas no peito, do desfile de 7 de Setembro.

Nem mesmo a Covid-19 impediu Nestor de levar uma vida independente até os 105 anos. Orgulhoso dos 5 filhos, 10 netos e 8 bisnetos, ficava feliz ao ver na TV um dos netos, Tiago Leme, correspondente em Paris. “Ele sempre foi o ponto de união da família”, conta Leme. “Lembro desde criança dos carnavais na casa dele em São João del-Rei, dos natais em Brasília.”

Só nos últimos três anos a saúde ficou debilitada, em parte devido a uma fratura de fêmur, e muito devido à perda de Niva. “Ele chamava por ela”, conta Márcia. “Eles tinham um amor fora da nossa realidade, muito grande —os dois eram um para o outro o tempo todo.”

Nestor da Silva morreu no dia 30 de maio, de falência múltipla dos órgãos, um mês e meio antes de completar 109 anos. Segundo a família, com sua morte agora são 21 os pracinhas da FEB ainda vivos.

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Fonte: redir.folha.com.br
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