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Mortes: Ex-boia-fria e engraxate, correu sua última maratona aos 88 anos

Mortes: Ex-boia-fria e engraxate, correu sua última maratona aos 88 anos
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 08/06/2026 às 12:04

A história de Erasmo Braga Coutinho Vieira com a corrida começou aos 14 anos, depois de conseguir emprego como office-boy na Nitro Química, em São Paulo, onde passou a frequentar o clube de regatas. Teve contato com vários esportes, mas foi pela corrida que se apaixonou. Com ótimos resultados em competições, ganhou bolsa de estudos no colégio Liceu Eduardo Prado, formando-se técnico químico e ganhando o cargo de ajudante de laboratório. Mais tarde, foi chefe do setor na Rhodia.

Com o casamento, em 1956, e os três filhos, deixou de competir, mas nunca parou de se movimentar. Voltou às competições em 1982, dedicando-se às maratonas. Entre as conquistas, o recorde brasileiro dos 800 metros em 2019, pela Associação Brasileira de Atletismo Master, na categoria 90 anos. Erasmo percorreu a distância em menos de cinco minutos.

Correndo, continuou até os 93 anos, quando aliviou o ritmo, por orientação médica. Ainda assim, seguiu caminhando de oito a dez quilômetros por dia. Sua última maratona foi aos 88 anos, acumulando vitórias em campeonatos brasileiros até os 92. “Bateu recordes de cinco e dez quilômetros sucessivas vezes após seus 70 anos, e foi campeão sul-americano em sua faixa etária”, conta a nora, Adriana Silva.

Quem cruzava com Erasmo voltando do supermercado, cheio de sacolas, até oferecia carona, mas ele preferia caminhar. Bem vestido, com passos rápidos, corpo ereto, rebatia que era preciso se manter ativo e autônomo, recorda a amiga Eliane de Carvalho. “Tinha uma postura positiva diante da vida. Mencionava a idade avançada como um exercício de aceitação de quem não tem tempo a perder.”

Questionado sobre como manteve a prática do esporte por tanto tempo, Erasmo respondia ser fácil, já que os concorrentes eram poucos. “A esta altura, os adversários já não estavam mais neste plano para fazer história, dizia ele, e soltava uma boa risada”, lembra Eliane. “Era um impulso de vida.”

Sempre com um sorriso generoso, contando histórias, ensinando e correndo. Assim era Erasmo para o amigo Rodrigo Bageli, que o via como exemplo e inspiração. “Vê-lo correr sempre me fazia aprumar a postura, deixar as reclamações de lado e arregaçar as mangas. Diante daquela disposição, naquela idade, como posso fazer corpo mole?”

Nascido em Fundão (ES), era descendente de portugueses e teve três irmãos. Morou na região serrana do estado, em Santa Leopoldina, e depois em Santa Bárbara D’Oeste, no interior paulista, onde ajudava a mãe a cortar cana. Aos 12 anos, o pai arrumou emprego em São Paulo e, para ajudar a família, Erasmo foi engraxate na estação da Luz e na praça do Patriarca.

“Trabalhava com intensidade e adorava cuidar da família e ter todos na mesa para contar os tempos de garoto e as conquistas nas competições. Era incansável; correr fazia parte da existência dele”, observa o filho Amauri Coutinho, destacando que o pai alfabetizou filhos e netos. “Também ensinou a soltar pipa, andar de bicicleta, nadar, pescar, acampar. Foi um paizão.”

Depois de aposentado, plantou milhares de árvores em seu sítio, em Mogi Guaçu (SP), ajudando a recuperar nascentes.

Erasmo morreu em 22 de abril, aos 97 anos, durante cirurgia no fêmur, após cair ao sair para caminhar. Deixa a mulher, Elenice, duas irmãs, três filhos, quatro netos e dois bisnetos.

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Fonte: redir.folha.com.br
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