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Cotidiano

Morte em ponte acende debate sobre segurança

Morte em ponte acende debate sobre segurança
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 17/06/2026 às 13:51

O arremesso da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21, do alto de uma ponte abandonada em Limeira, no interior de São Paulo, reacendeu o debate sobre a segurança de atividades como saltos, escaladas e trilhas. Até onde é seguro arriscar a vida sem um mínimo de fiscalização de quem quer que seja?

O pressuposto absurdo que chegou a ser aventado nas redes sociais, sempre elas, foi de que a garota assumiu o risco ao contratar um salto e pagar R$ 180 para sentir a emoção do rope jump, atividade na qual a pessoa salta de determinada altura presa a uma corda (rope, em inglês) e, ao chegar na ponta, fica se balançando em movimento de pêndulo até ser levada para baixo.

Nos vídeos do Instagram, onde ela havia visto o perfil da empresa que nem empresa era, tratava-se tão somente de um grupo de amigos que se diziam especialistas, tudo parecia muito emocionante. E era vendido, como em tantos outros vídeos de esportes radicais, como algo que qualquer um pode fazer. Maria Eduarda não tinha culpa de buscar a adrenalina prometida.

E, não, o que aconteceu não foi acidente.

“Diria que ali os rapazes eram assassinos”, resume Rafael Bridi, recordista mundial de highline e dono da agência Natural Extremo, especializada nas atividades mais radicais do montanhismo, rope jump incluído, localizada em Urubici (SC).

Bridi é engenheiro de produção civil e exibe todas as certificações de normas em vigor no país (sim, elas existem e são rígidas) no site de sua empresa.

Ele se orgulha de exigir formação e especialização de todos os seus instrutores e vê com tristeza não só a perda de mais uma vida para a irresponsabilidade ou imperícia, mas um problema sério que afeta todo o segmento de esporte de aventura: a falta de fiscalização.

“Se não tem fiscalização, as pessoas não se sentem na necessidade de seguir as normas, se acham super-homens acima da lei”, aponta ele.

“Porque a partir do momento em que você sabe que vai ser responsabilizado, vai pagar multas, vai responder juridicamente, você tira fora o grupo que a gente chama de aventureiros, que não sabem o que estão fazendo ali.”

Para o instrutor de escalada e psicólogo Ricardo Ishigami, o caos e a pressão social que leva tanta gente a buscar válvulas de escape em atividades radicais é o motor que propicia o que chama de “cultura do jeitinho”.

“As pessoas acham que podem ganhar um dinheirinho em cima dos que buscam o prazer imediato de forma irracional, sem filtragens, sem checar o básico, mesmo não tendo qualificação para isso”, avalia ele.

Observando as fotos que circularam nas redes da fatídica ponte, os especialistas apontam vários problemas que uma mínima fiscalização básica já teria levado à interdição da atividade por aquelas pessoas e naquele local.

As críticas vão desde um mosquetão mal colocado e uma ancoragem totalmente errada das cordas na estrutura (de resto comprometida) da ponte abandonada, até a escolha de cordas que não seriam as ideais para a prática, e que, nas imagens, parecem até estar gastas.

“Mas o problema é outro, mais sério: mesmo que tudo estivesse certo, o que aconteceu foi simplesmente que não prenderam a corda na menina, ela foi atirada no vazio”, ressalta Ishigami, citando como provável causa o que chama de “curva de risco”.

“Quando você está muito tempo na montanha ou repetindo um trabalho”, explica ele, “vai criando a tal curva de risco, você está cansado, vai pulando procedimentos, no automático, e ali o que se sabe é que havia muita gente saltando, um atrás do outro, a curva de risco era muito grande e não se observou que é obrigatório, sempre, ter duas pessoas pelo menos fazendo a checagem dos procedimentos, para evitar esse problema, e que se vê que não havia”.

Para o montanhista e dono da agência de escaladas de alta montanha Soul Outdoors, Pedro Hauck, a morte de Maria Eduarda “é o resultado de confiar em empresas informais, operadores desqualificados e equipamentos toscos que vendem adrenalina barata nas redes sociais”.

Ele alerta que “o mercado está inundado de falsos profissionais colocando vidas em risco pelo lucro fácil”. “É preciso sempre buscar referências, informações de quem já conhece, certificação e histórico.”

Já a Abeta (Associação Brasileira da Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura), entidade que há anos tenta promover as atividades seguras em todo o país, soltou nota pelas redes sociais se solidarizando com os familiares de Maria Eduarda e repudiando “a negligência, o despreparo e a irresponsabilidade que culminaram nesta perda irreparável”.

A associação afirma que segue “lutando por normas técnicas robustas, formalização do setor e capacitação contínua de profissionais” e afirma que não aceitará “transferência de responsabilidades, soluções mágicas de interdição generalizada ou legislações inócuas que não atacam a raiz do problema: a falta de profissionalização e de fiscalização adequada”.



Fonte: redir.folha.com.br
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