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Homenagem

Morre Elza Berquó, uma das pioneiras da demografia no Brasil

Morre Elza Berquó, uma das pioneiras da demografia no Brasil
Imagem/Divulgação Site: Agência Brasil
Publicado em 16/07/2026 às 12:40

Aos 95 anos, a matemática, estatística e, principalmente, demógrafa brasileira Elza Salvatori Berquó se tornou a primeira mulher a receber da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) o título de doutora honoris causa.

“Meu tempo é curto, mas ele foi longo o suficiente para ver e ouvir vocês com todo esse carinho. Jovens, continuem a estudar e continuem a luta pela democracia”, disse ela durante a cerimônia, em agosto de 2021.

Sua influência em diferentes campos de pesquisa tende a permanecer forte por muitos anos, mas o tempo de vida de Berquó chegou ao fim. Um dos nomes pioneiros no Brasil da demografia, a ciência que se vale da estatística para estudar as populações humanas, ela morreu nesta quinta-feira (16), aos cem anos.

Além de publicar pesquisas relevantes, especialmente sobre a vida das brasileiras, Berquó teve participação decisiva na abertura de instituições de estudo e pesquisa, como o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), em 1969, e o Nepo (Núcleo de Estudo de População), da Unicamp, em 1982.

Seu pai, um funcionário dos Correios, vivia mudando de cidade. Numa passagem da família por Guaxupé, no sul de Minas Gerais, ela nasceu em 17 de outubro de 1925. Quase duas décadas depois, quando os Berquó moravam em Campinas, a jovem resolveu estudar matemática na PUC (Pontifícia Universidade Católica).

Em 1950, já formada, surgiu a chance de trabalhar na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e, oito anos depois, concluiu o doutorado em bioestatística pela Universidade Columbia, nos EUA.

“Quando entrei na estatística, achei os modelos probabilísticos uma delícia porque as coisas têm um tanto de probabilidade de ser e um tanto de não ser. Aqueles modelos me encantaram. Fiz muita coisa boa em estatística. Mas chega uma hora em que dizemos, e daí? Qual a explicação que está por trás dos resultados para que tudo aconteça? Quais são os determinantes sociais, econômicos, culturais, políticos que estão por trás de tudo isso? Eu quis trabalhar com esses elementos. E isso é a demografia”, disse à revista da Fapesp em 2017.

Em 1965, ao lado de nomes àquela altura ligados à USP, como as também demógrafas Neide Patarra e Maria Coleta de Oliveira e o economista Paul Singer, Berquó realizou uma pesquisa sobre reprodução humana na cidade de São Paulo.

Pela primeira vez, foi constatada uma queda na fecundidade das paulistanas, um fenômeno que seria verificado em todo o país em pesquisa mais abrangente e coordenada por Berquó na década seguinte.

Quatro décadas depois, à Folha, a demógrafa discutiu as razões para o declínio da taxa de fecundidade em todo o país. Indicou fatores mais previsíveis, como a divulgação crescente de métodos contraceptivos, e outros menos esperados, como a “revolução das telecomunicações no Brasil” a partir dos anos 1970. “No momento em que os sinais de TV alcançam os rincões mais afastados, você veicula valores. Nas telenovelas, por exemplo, as famílias são sempre pequenas”, disse.

Em 1966, fundou na USP o primeiro núcleo oficial de formação em demografia do país, o Cedip (Centro de Estudos de Dinâmica Populacional). As pesquisas avançaram, mas por pouco tempo. A ditadura ganhou feições mais repressoras no final de 1968, com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que determinou, entre tantas outras medidas, a aposentadoria compulsória de Berquó.

Meses depois, porém, começou a reerguer sua carreira acadêmica ao integrar o grupo fundador do Cebrap, ao lado de figuras como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o filósofo José Arthur Giannotti.

“Ela chegou com um projeto definido, já sabendo o que ia fazer e nos mostrou a revolução que estava acontecendo na reprodução dos brasileiros”, lembrou Giannotti em uma cerimônia em 2017, na qual o auditório do Cebrap foi batizado com o nome de Berquó.

No final dos anos 1960, ela e o primeiro marido, o matemático Rubens Murilo Marques, tinham se mudado para uma casa projetada pelo celebrado arquiteto Vilanova Artigas na Chácara Flora, na zona sul de São Paulo. A residência serviu como esconderijo para jovens da luta armada. “Eu nunca fui de partido algum, mas a localização isolada da nossa casa naquele momento foi providencial”, lembrou à revista Veja São Paulo em 2018.

Mais tarde, Berquó soube que todos aqueles rapazes e moças tinham sido mortos pelo regime militar.

A década de 1980, quando teve início a redemocratização, foi especialmente importante para a trajetória da pesquisadora. Em 1982, a convite do então reitor da Unicamp, José Aristodemo Pinotti, Berquó montou o Núcleo de Estudos de População, o Nepo. Desde então, a entidade tem desenvolvido pesquisas sobre a saúde da população negra, a mortalidade infantil e a expectativa de vida dos brasileiros, entre outros temas.

Sete anos mais tarde, no artigo “A Solitária Diferença”, apresentou o conceito de “pirâmide da solidão”. A partir dos dados dos Censos de 1970 e 1980, a demógrafa mostrou que a tendência é que os homens se relacionem com mulheres da mesma faixa etária ou mais jovens. Do lado feminino, acontece o oposto. Com o passar do tempo, as chances de arrumar um parceiro crescem para a porção masculina da população, mas diminuem para as mulheres.

Nessa época, ela vivia com seu segundo e último marido, o administrador público José Ademar Dias, que considerava o grande amor da sua vida.

Completou seu centenário em 2025, com uma saúde frágil, mas ainda envolvida com o trabalho. Na ocasião, foi homenageada em seminários e em um projeto especial online. Além disso, o órgão da Unicamp passou a se chamar Núcleo de Estudos de População Elza Berquó.

Fonte: redir.folha.com.br
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