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Idosos franceses não fazem manha?

Idosos franceses não fazem manha?
Imagem/Divulgação Site; Folha de SP
Publicado em 19/06/2026 às 11:54

Gostaria de fazer um pedido aos editores e aos psicanalistas deste país: lancem um livro sobre como educar idosos. Como prepará-los para o mundo? Como ser uma filha suficientemente boa, do tipo que frustra e supre, do tipo que oferece acolhimento de forma atenta, porém comete falhas graduais para que o velho se torne socialmente saudável.

Você mal entra em uma livraria, milhares de títulos sobre maternidade saltam na sua cara. Os livros que ajudam a instruir e formar crianças dominam as prateleiras e mesas expositoras, mas por que ninguém teve ainda a brilhante ideia de lançar um “Filha fora da caixa”? “Velhos franceses não fazem manha”? “O que esperar quando você está esperando (que eles caiam mais uma vez porque insistem em ter passadeiras e tapetes)”?

Percorri corredores e mais corredores de livrarias, vasculhei sites, mas não encontrei nada que me ajude a convencer um velho teimoso, com neuropatia periférica, a se mudar para uma casa sem escadas. Nem uma única obra “entre os mais vendidos do New York Times” que me ajude a suportar o fato de o mesmo idoso, também portador de insuficiência cardíaca, ter jogado no lixo a pulseirinha de monitoramento à distância.

Não existe um mísero guia que nos ajude a convencer um pai com úlcera a diminuir o consumo de emulsificantes, corantes artificiais e aromatizantes (ele chega a comer cinco pacotes de biscoitos recheados numa única tarde e, no dia seguinte, garante que está morrendo sem entender o motivo: ‘Não fiz nada’). Muito se fala sobre os “terrible two“, mas quem aí está falando sobre os “terrible eighty”?

Minha mãe passou uma semana me dizendo que gostaria de ir a um neurologista. Mas tinha que ser um bom. Tinha que ser um que não a irritasse. Pedi indicações a meus amigos médicos. Ela não gostou de nenhum dos médicos indicados. Não gostou por quê, mãe? Porque não. Me explica pra eu poder te ajudar? Não quis explicar. Estava ocupada vendo Netflix. Percebendo que ficaria de castigo, ela se limitou a dizer que não foi com a cara de nenhum deles e que meus amigos médicos não são bons em fazer indicações (e nem muito bons como amigos).

Por fim, marcamos com uma mulher com mais de 60 anos, cujo consultório ficava a menos de 25 minutos da sua casa. Eram essas as condições. Eu já estava me arrumando para buscá-la (tinha desmarcado todas as reuniões do dia) quando a senhora travessa decidiu que não precisa mais de neurologista. Era melhor que eu gastasse esse dinheiro em um mocassim oxford de couro (para ela).

Argumentei que não havia negociação: agora ela iria. E iria de qualquer jeito. Ah, se iria. Vou contar até cinco e quero ver você pronta! Respondeu que não iria e pronto. Ameacei parar de pagar todos os streamings. Ela disse que arrumaria uma “caixinha proibida que faz pegar todos os canais”. Quando falei que ela estava proibida de cometer pequenos delitos, minha mãe anunciou que desligaria o celular e que estava avisando o porteiro para não deixar ninguém subir.

Semana passada, ela e meu pai quebraram o pau outra vez. Foi um sufoco receber áudios dos dois ao mesmo tempo e tentar apartar a briga. Nessas horas, o que fazer? Deixar no cantinho para pensar no que fez de errado? Gritar? Dar tapas na bunda? Proibir o chocolate ou os seriados de assassinato? Confiscar a manta do joelho? Cadê o livro de educação não violenta aplicada à educação de idosos? Isso é urgente!

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Fonte: redir.folha.com.br
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