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Cotidiano

A lábia dos narradores de futebol

A lábia dos narradores de futebol
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 16/07/2026 às 12:46

Existe um verbo em espanhol: “cantinflear”. Mais conhecido aqui como encher linguiça, andar às voltas, enrolar, embromar, ensebar, abusar de verbos perifrásticos, usar cem palavras para dizer o que se resolveria com oito. Tudo que fiz agora para resumir o simples ato de complicar.

O termo foi criado em homenagem ao personagem do comediante mexicano Mario Moreno, Cantinflas, que tinha a mania de encadear frases longas e palavras forçadamente rebuscadas para impressionar. No Brasil, o verbo equivalente seria rolandoleroar, como conjugaria o maior de todos, meu amado Odorico Paraguaçu.

Mestres da cantinflagem, os narradores de futebol são imbatíveis.

Minha timidez me faz direta demais. Breviloquente, eu diria, se fosse mais prolixa. Odeio reuniões desnecessárias, não tenho habilidade para prolongar introduções nem paciência para perfumar frases e preencher os vazios com palavras gordurosas. Sou o oposto disso: se posso ir direito à substância, eu vou.

Já me conformei: futebol nunca seria narrado por mim. Não por falta de amor ao esporte, que é bonito, emocionante, e consegue fazer nações inteiras gritarem juntas ao redor de uma bola. No máximo, eu seria a voz da objetividade do ponto eletrônico —aquela que passa links comerciais, resultado de outros jogos, número de chutes— enquanto os mestres da narração recitam a sua poesia.

O ponto (final), como se sabe, resolve tudo com muito pouco. E pouco, no futebol, não serve para nada. Quando se chega ao ponto, encerra-se o assunto. Mas aqui o assunto precisa durar até o apito final. E depois um pouco mais nos acréscimos. E depois, com o último fôlego que resta, nos pênaltis. Já imaginou uma cobrança de pênaltis sem um narrador histérico da tela? Zero emoção.

O goool com uma centopeia de “os” exige boa forma respiratória. Manter as vírgulas vivas até o último minuto é mais do que isso, é esporte de resistência.

Narrar uma partida é passar quase duas horas descrevendo o que todos já estão vendo. É transmitir o óbvio com entusiasmo e urgência.

Ao lado deles estão os comentaristas, os cocantinfleadores. Ex-jogadores, árbitros aposentados, especialistas da bola. Estão lá para entrar nas pausas para hidratação da secura da língua do narrador. Carregam a ingrata tarefa de comentar o incomentável. Ressaltar que quem não ganha perde; no caso de empate, que nenhum dos dois ganhou. Mas também nenhum perdeu, embora em certo sentido ambos tenham perdido, especialmente se precisavam ganhar. Até que aparece um grande lance e são cortados pelo narrador.

Os jogadores também precisam de saliva —para as entrevistas e para cuspir entre uma resposta e outra. Foi uma grande estreia, trabalhamos muito para isso, entramos sabendo da nossa responsabilidade, foi um trabalho de equipe. Infelizmente a bola não entrou, o importante é não desanimar, temos que continuar evoluindo, jogo a jogo.

Carlo Ancelotti parece ser da minha turma. Dá para notar o incômodo quando é colocado diante de perguntas óbvias ao término de cada partida. Ele é obrigado a inventar novas formas de falar do mesmo, louco para sair e acender o seu cigarro.

Agora é focar a próxima Copa, respeitar o adversário dentro e fora do campo, valorizar o coletivo e agradecer à torcida e, claro, não desanimar, porque no futebol, como na vida, a gente levanta a cabeça e segue em frente.

Ponto final.

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Fonte: redir.folha.com.br
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