Comportamento
A epidemia de solidão dos chineses
“Você está morto?” é o mais novo aplicativo dos jovens solitários
As consequências da Revolução Cultural correm até hoje nas veias chinesas. Mas o que foi esse movimento e como ele explica o aplicativo mais popular no país hoje (Você está morto?) ?

Entre os anos de 1966 e 1976, o líder comunista e ditador Mao Tsé-Tung ergueu sob a China um movimento anti capitalista e anti imperialista, com o objetivo de eliminar os opositores do regime maoísta. O país viveu grandes transformações neste período de dez anos.
Uma das políticas instauradas por Mao consistia em erradicar as “Quatro Velharias” – hábitos, costumes, velhas ideias e cultura – o que instaurou um clima de adversidade e desconfiança entre a população. Essa doutrina foi o ‘empurrão’ necessário para abalar os pilares familiares tradicionais que habitavam a China.
Para entender melhor a mudança de costumes, é importante pontuar outro elemento que corroborou para a ruína desta cultura: a queda da filosofia coletivista de Confúcio.
O pensador acreditava que, para existir equilíbrio, era necessário a prática do Ren (humanidade) e da coletividade harmoniosa. Este processo de desenraizar as Quatro Velharias, somado a outras tensões, fomentou a atomização social dos chineses.

Ao passo que o regime de Tsé-Tung entrava em ruínas, a epidemia de solidão só aumentava. Desde então, a China vem adotando práticas que encorajam, direta ou indiretamente, a solitude. A mais conhecida, a Política de Filho Único (já extinta) teve grande impacto, ao ressaltar o desequilíbrio de gênero e o machismo escancarado da sociedade.
Como maneira de mitigar os problemas, agora os jovens podem fazer um check-in a cada dois dias no aplicativo, para confirmarem que estão vivos. Caso não o fizer, o próprio celular avisa um contato de emergência indicado pelo usuário.
Lançado em maio do ano passado, o aplicativo é pago e já se tornou o mais baixado de toda a China. “Existe o temor de que as pessoas que moram sozinhas possam morrer sem que alguém perceba, sem ter ninguém para quem pedir ajuda”, comentou um usuário nas redes sociais.
A frase de Confúcio, “o silêncio é um amigo que nunca trai”, exalta a introspecção como virtude espiritual e equilíbrio interno. Entretanto, no contexto da epidemia de solidão, esse silêncio ganha um novo significado – ao deixar de ser uma escolha, ele se revela como uma patologia que assola o comportamento de várias gerações.
Por mais absurdo que o nome e a proposta pareçam, “Você está morto?” se mostra um bálsamo responsável por transformar o silêncio de uma vida solitária em um sinal de alerta concreto, se beneficiando da tecnologia como um alicerce de cura.






