Gosto de futebol, gosto de clima de Copa, mas desta vez eu estava mais para Corinthians do que para a seleção. Até que Maduka Okoye, o goleiro da Nigéria, apareceu.
No começo pensei que fosse IA. Mas a IA não chegou a tanto: Okoye foi talhado à mão. Depois desconfiei que alguns filtros tivessem amplificado os seus atributos e acabei concluindo que ele é o próprio filtro.
O algoritmo, que me conhece melhor do que minha terapeuta, foi me entregando Okoye a conta-gotas, como remédio controlado que promete tratamento e entrega dependência.
Aproveitei que meu filho estava na escola e fui procurar o monumento no álbum de figurinhas da Copa. Eu me contentaria com um álbum inteiro só dele. Folheei, folheei. Onde está a Nigéria? Não está.
Descobri que a Nigéria nem está na disputa. Mas quem disse que é preciso estar na Copa para ser o melhor da Copa?
Apesar de tecnicamente não estar jogando, Okoye virou um dos assuntos mais comentados no X (está na hora de abolir a explicação “antigo Twitter”), ganhou espaço nas redes, nos jornais e passou a circular nas conversas femininas como um grande acontecimento internacional.
Sei que ele tem 26 anos, defende a Udinese, disputa a Série A Italiana e fala seis línguas. Um currículo invejável. Mas, honestamente, quem se importa com isso?
A Fifa tinha que encontrar um jeito de encaixá-lo em algum lugar —seleção, comissão técnica, sei lá, comitê de imagem do Mundial. Porque todas concordam: é um desperdício Okoye não ser escalado— literalmente, nos seus 1,98 m de altura.
Okoye não foi o único goleiro a parar o mundo. Seria injusto dizer que o torneio pertence apenas ao goleiro que não está nele.
O adorável Vozinha fez de todos nós torcedores de Cabo Verde desde criancinha. Foi uma muralha e garantiu o improvável empate histórico contra a Espanha –zebras que lavam a alma. Deixou o gramado em lágrimas, abraçado pelos companheiros, em um momento definido pelo técnico como um “choro de resiliência”.
Mas não foi só Vozinha que enxugou as lágrimas. Um apostador do mercado de previsão Polymarket perdeu quase US$ 1 milhão com o 0 a 0. A estupidez pode custar caro.
Sempre achei ingrata a posição dos goleiros. Atacantes fazem gol e saem correndo para os aplausos; meias distribuem passes e dividem a glória com os artilheiros. Até os zagueiros, que vivem da truculência, carregam uma solenidade. Mas goleiro é outra coisa.
Goleiro é solidão. Um jogador com uniforme diferente que fica preso dentro do seu quadrado. Parece um apêndice do time. Está sempre na iminência de levar uma bolada e fica noventa minutos esperando o desastre. Para ele é sim ou não, não há meio-termo.
Alguns goleiros são inesquecíveis. Quem não se lembra do “El Loco”? O colombiano René Higuita não se limitava a defender: roubava a cena com dribles no meio de campo, cobrava faltas, marcava gols e tinha uma forma particular de agarrar a bola com as pernas. Outro lendário é o o soviético Lev Yashin, que bebia vodca e fumava antes dos jogos para “aguçar os sentidos”.
Hoje temos o nosso Alisson, com aquele cabelo comprido e expressão bíblica, que está sendo chamado de Jesus. E para quem menciona os furos nas mãos, aí já não sei se é maldade, inveja ou apenas oposição masculina incapaz de admitir beleza em outro homem.







