Meu editor sempre diz que sonhos só são bons pra quem sonha. Na mesa de bar, tendem a ser intragáveis — para não dizer inadequados. Na literatura, costumam ser enfadonhos. Especialmente quando longos. Por isso peço a paciência do leitor para contar um que tive na semana passada. Prometo ser breve (não necessariamente adequada).
Eu estava em casa quando dois personagens bateram à porta. Eram dois homens de aparência normal mas, não sei como, eu sabia que eram meus personagens. Disseram que estavam famintos e precisavam comer, eu tinha algo pra dar?
Fui correndo até a cozinha. Tentei fazer um sanduíche caprichado mas, como estava com pressa, me atrapalhei, derrubei os ingredientes no chão, malogrando o lanche. Não querendo voltar de mãos abanando, peguei um pão velho e seco e dois copos de água. Fui até a porta. Ao ver o que eu trouxe, um dos personagens se indignou: não queremos pão seco. E o outro: também não queremos água, queremos suco.
Acordei embasbacada com a mensagem que meu inconsciente havia me enviado. Nos dias que antecederam o sonho, eu estava começando a escrever um novo romance. Ao contrário dos que escrevi antes, para os quais me prepararei lendo diversos livros e fazendo pesquisa de campo, para este não havia me aprontado. Comecei a escrever na louca e na pressa, no tempo restrito de uma vida atabalhoada.
Muitos romances são escritos dessa forma, no corre, e dão certo, inclusive por terem sido escritos no jorro ou num ritmo que traduz a velocidade de uma época. Meu jeito de trabalhar, no entanto, não funciona assim, e meus personagens vieram me lembrar disso, se recusando a receber menos do que os personagens que vieram antes, e exigindo suco: o meu suco.
Ao acordar, fiquei constrangida: fui pega fazendo meu trabalho nas coxas. Depois, senti gratidão pelo meu inconsciente, que se dá ao esforço de elaborar tantas mensagens, todas as noites, com imagens tão sofisticadas, apontando o que preciso resolver.
Também tirei o meu chapéu para a arte, para o caráter subversivo da arte, que escapa às demandas da agenda. Não foi a primeira vez que a literatura se insurgiu à minha frente, dizendo que não se adaptaria ao cronograma que eu lhe impus ou ao ritmo de mercado, que pede, idealmente, um livro a cada dois ou três anos.
Meu romance anterior, por exemplo, apesar da minha pressa, demorou cinco anos para ser escrito, desempacando só depois que minha filha se curou da doença que inspirou o livro — ou seja, só depois que o trauma virou passado.
O mais requintado dessa história é que a mensagem do sonho não se limita ao trabalho artístico. Pode ser extrapolada para a minha forma de viver, como se o fazer literário fosse também metáfora ou uma realidade em miniatura dos métodos apressados que, como sujeita contemporânea, emprego para quase tudo na vida.
Gosto de pensar que esses dois sujeitos poderiam bater na porta de quase qualquer pessoa, se referir às atividades de quase qualquer pessoa, pedindo respeito aos ciclos de cada coisa. Duas Testemunhas de Giovana ou de seja lá quem for, com a Bíblia anticapitalista debaixo do braço, pregando antes o método do que o resultado e ressaltando que é na entrega que reside (e resiste) o prazer.







