O homem que apareceu para Maria (nome fictício para proteger a identidade da vítima) em um perfil no aplicativo Tinder trazia uma história difícil de ignorar: dizia ser empresário, dono de uma fortuna, mas condenado por um câncer terminal.
Os dois começaram a se relacionar e, em poucas semanas, sensibilizada com o medo que ele dizia ter de morrer sozinho, Maria acabou recebendo-o em sua casa. Tudo, porém, fazia parte de uma farsa que lhe causaria um prejuízo de cerca de R$ 27,5 mil, segundo conclusão da Justiça.
Pedro Henrique Silva, 32, foi condenado pela Justiça por crimes de estelionato e furto qualificado mediante fraude a uma pena de três anos e quatro meses de prisão em regime semiaberto. Ele ainda pode recorrer.
Na sentença, a juíza Roberta Moraes de Barros, da 1ª Vara Criminal de Osasco, na Grande São Paulo, afirmou que Pedro se valeu de “artifícios emocionais cruéis” que colocaram a vítima em uma situação de “severa fragilidade emocional”. “Ela acreditou estar auxiliando e cuidando de pessoa que padecia de doença terminal”, afirmou.
Segundo o processo, Pedro usava curativos falsos, simulava vômitos de sangue com uso de corantes vermelhos e mostrava fotografias em que parecia com cateter nasal, alegando estar em tratamento quimioterápico.
Ele teria criado também um suposto médico e um suposto advogado, que entravam em contato com Maria via WhatsApp para falar sobre a doença e a suposta proximidade da morte. Tudo para sensibilizá-la ainda mais.
Alegando que seus cartões não estavam funcionando, sempre conforme o processo, Pedro conseguiu que Maria lhe fizesse um Pix de R$ 5.000. Posteriormente, teria acessado o celular da namorada enquanto ela lavava louças e contratado empréstimos bancários no nome dela, nos valores de R$ 4.400 e R$ 18,1 mil.
A farsa, segundo a vítima, só foi descoberta quando ela pegou o celular do namorado e percebeu que o aparelho possuía dois aplicativos de WhatsApp instalados. Segundo a ação, era o próprio Pedro quem enviava as mensagens atribuídas ao médico e ao advogado. Ao vasculhar os pertences dele, encontrou também um frasco com o corante vermelho.
Interrogado pela polícia, Pedro admitiu ter inventado a história do câncer para deixá-la com pena. Disse estar arrependido e que faria o possível para devolver os valores.
A defesa, no entanto, afirmou à Justiça que não há provas de que ele tenha obtido vantagem ilícita e sustentou que o Ministério Público baseia a acusação apenas no relato de Maria.
O advogado Gabriel Reiff, que representa Pedro, afirmou também que a confissão ocorreu “em um contexto peculiar e potencialmente coercitivo”. Segundo o advogado, a família havia amarrado Pedro em uma cadeira, exigindo a devolução dos valores.
Ele afirma que o homem teria sido solto após a chegada da polícia e que, na delegacia, teria confessado sem a presença de um advogado e “em um ambiente permeado pela presença de diversos familiares da suposta vítima”.
Procurado pela Folha, o advogado afirmou que vai recorrer da condenação. “Discordamos veementemente da sentença”, disse. “Não há elementos no processo que corroborem as alegações.”
Segundo Reiff, a Justiça também não levou em consideração a violência psicológica que Pedro sofreu no episódio, “tendo sido amarrado pelos familiares”.







