A Copa do Mundo começou com a cara do nosso tempo. Restrições por credo, raça e ideologia, a ganância sem disfarce —e o estrondo das bombas, em guerras que não encontram cessar-fogo, ecoando junto aos rojões e aos gritos de alegria e de dor das torcidas apaixonadas.
Queremos ser campeões, queremos celebrar o futebol e as vitórias, queremos uma festa mais bonita a cada avo da matemática criada pela Fifa para acomodar 48 países. Mas, parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade, este vasto mundo não parece encontrar, no nosso coração Raimundo, nem a rima, nem a solução.
Em um cenário de mudanças aceleradas, polarização crescente e erosão dos mecanismos tradicionais de cooperação, pensar o mundo e construir saídas para a vastidão de seus problemas tornou-se uma questão em si. O que fazer quando o conhecimento acumulado já não dá conta de responder a esta era de contradições, nem de transformar pensamento em ação?
Nascidas no início do século passado, organizações dedicadas à produção de conhecimento para orientar políticas públicas —mais tarde conhecidas como think tanks—partiram da premissa simples: quanto melhores as evidências, melhores as decisões. Acreditava-se que pesquisa, análise e informação de qualidade seriam capazes de abrir caminhos e aproximar sociedades de soluções mais racionais para seus desafios.
Hoje, essa premissa parece menos óbvia. Em seu mais recente romance, “O que podemos saber” (Companhia das Letras, 2026), Ian McEwan imagina um futuro no qual o acúmulo de conhecimento e a produção compulsiva de registros digitais não impediram o colapso climático, nem impeliram a humanidade à ação. Ao contrário, legaram gerações apáticas e avessas ao risco de pensar.
O futuro de McEwan é uma questão do presente. A revolução da inteligência artificial mexeu na lógica do saber. Em poucos segundos, sistemas generativos são capazes de sintetizar anos de estudos, comparar cenários e responder a perguntas complexas. O conhecimento tornou-se abundante. E, no entanto, nunca foi tão difícil converter esse saber disseminado em capacidade de agir coletivamente.
Conectar conhecimento e ação não é um conceito novo. É justamente a proposta dos think and do tanks. Sem abrir mão do rigor analítico como ponto de partida, mas cientes de que evidências, sozinhas, não provocam mudanças, esses centros de estudo e ação testam soluções, aproximam atores que raramente dialogam, constroem coalizões, desenvolvem capacidades e acompanham processos de transformação.
Ainda assim, no atual estado de coisas, o que separa uma boa ideia de uma boa política é, cada vez mais, a confiança.
Nos últimos meses, um dos temas mais debatidos em encontros internacionais de centros de pesquisa e formulação de políticas tem sido a erosão da confiança nas instituições. Não apenas por estratégias de desinformação, mas também por promessas não cumpridas, falhas na entrega de políticas públicas e a falta de transparência.
Reconstruir a confiança exige mais do que apresentar fatos. Exige não ter medo de criar pontes, de falar com os diferentes, de dialogar para chegar aos consensos mínimos. Não há atalho. Dentro de cada país, instituições precisam entregar o que prometem e tratar o cidadão como cliente premium. Entre as nações, é preciso honrar acordos e resistir à tentação de transformar cada divergência em ruptura.
Talvez o papel mais importante de quem pensa o mundo hoje seja construir e promover as condições para que confiança e cooperação voltem a produzir ação. Só assim o conhecimento será capaz de gerar um futuro comum.







