Adamastor Marques não deixava passar uma vírgula. Literalmente. Ele foi um dos jornalistas revisores mais conhecidos e queridos do Paraná, onde atuou por décadas em jornais como O Estado do Paraná e Gazeta do Povo.
Respeitado por “focas” (recém-formados) e chefes, entregava muito mais do que palavras corretas.
Munido de um sorriso gentil e uma caneta Bic, ele ensinava a riqueza da língua portuguesa. Revisou textos dos principais jornalistas do estado e também de grandes escritores, que eram colunistas nos anos 1980 e 1990, como observam ex-colegas. “Era um ‘xodó’ na Redação”, diz Célio Martins.
“Com a página revisada, vinha sempre uma aula, e a gente nunca mais cometia o mesmo erro”, afirma Erica Busnardo.
Também nas edições de livros (foram 42 obras) não se limitava a correções e detalhes técnicos. Sua revisão compreendia análise jornalística, cultural, histórica e literária. “Esmiuçava o texto com invulgar senso crítico, mas sem pretender ser o dono da verdade”, destaca o amigo José Alexandre Saraiva.
A profissão foi motivo de orgulho para Adamastor e seus filhos, que despertaram curiosidade e encanto pelas notícias. Cézar Marques se lembra das tantas vezes que acompanhou o pai na Redação, para a conclusão do jornal do dia.
“Ele era muito apaixonado pelo jornalismo. Paixão e brilho nos olhos ao exercer sua profissão foram o maior ensinamento dele.”
Nascido em Arapongas, interior do Paraná, filho de Aurora Bueno e Lino Marques, teve sete irmãos, que sofreram com a separação dos pais e a mudança para Curitiba. Adamastor conseguiu um emprego na Casa do Pequeno Jornaleiro, vendendo jornais pelas ruas da capital.
Em 1975, formou-se em comunicação social na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e prosseguiu como revisor. Em 2010, também pela instituição de ensino, formou-se em gestão da informação.
Era chamado pelos amigos de “o guardião da língua portuguesa”, conta a filha Caroline Marques, destacando que, mesmo depois da aposentadoria, o pai trabalhou com edição e revisão até “seu último suspiro”.
Casou-se com Vera Lúcia Haisi em 1981. Gostava de estar rodeado pela família, jogar canastra com a esposa, assistir a novelas, escutar discos antigos e ler suas coleções de livros.
“Com sua biblioteca em casa, nos recheava de histórias e informações importantes sobre temas variados. Sua sabedoria era impressionante”, recorda a sobrinha Luciana Rigoni. “Distribuía sorrisos e alegria, sempre muito amoroso e próspero.”
Morreu em 18 de maio, aos 79 anos, de leucemia mieloide aguda. Deixa esposa, três irmãs, dois filhos e seis netos.







