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Mulheres ainda são minoria na engenharia e relatam barreiras na formação e no trabalho

Mulheres ainda são minoria na engenharia e relatam barreiras na formação e no trabalho
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 22/06/2026 às 11:29

Para Thaís Santos, 24, o primeiro impacto ao chegar ao curso de engenharia civil foi a desproporção. Na primeira semana de aula na Escola Politécnica da USP, só via homens na sala. Pensou em como seriam os cinco anos seguintes de formação.

Por ser mulher, sentiu que precisaria se esforçar mais para ser reconhecida em um ambiente que define como machista. “O que eu vou ter que fazer para me provar e competir de igual para igual?”, diz ter questionado na época. O desconforto diminuiu ao longo da graduação, quando passou a ter contato com professoras e mulheres em cargos de liderança.

Quando ingressou, em 2020, a escola era dirigida por Liedi Bernucci, primeira mulher a ocupar o cargo em 124 anos. A presença feminina na direção, afirma, trouxe sensação de pertencimento. “Começar a enxergar mulheres nessas posições traz conforto.”

Hoje, a Poli é comandada por Anna Reali, segunda mulher no posto. Em entrevista à Folha em março, a engenheira afirmou que o afastamento feminino da área não começa na universidade, mas em uma mudança cultural durante a adolescência.

Os dados mostram o desequilíbrio na formação da área. Segundo o Seesp (Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo), com base no Censo da Educação Superior do governo federal, dos 87.749 formados em engenharia em 2024, 22.721 (26%) eram mulheres, ante 65.027 homens. Na Poli, mulheres são cerca de 20% dos alunos e pouco mais de 15% dos docentes.

Na tentativa de reduzir a desigualdade, a escola ampliou ações voltadas à diversidade e mantém iniciativas de apoio a alunas. Para Thaís, a participação em coletivos foi decisiva para permanecer no curso. Ao longo da graduação, migrou o interesse para áreas como consultoria e finanças e integrou o grupo Elas no Mercado Financeiro.

A presença feminina varia entre as salas de aula. Formada em engenharia civil pela UFPR (federal do Paraná), Gabriele Tres, 26, diz que cerca de 40% de sua turma era composta por mulheres. Ainda assim, relata episódios de desconforto e comentários inadequados de professores.

A escolha pela profissão passou pelas mulheres mais próximas. As duas irmãs mais velhas também são engenheiras. “Eu via elas em feiras de profissões, trabalhando nos estandes. Aquilo me ajudou a me enxergar ali”, afirma.

Durante a graduação, Gabriele presidiu o diretório acadêmico —foi a quinta mulher a ocupar o cargo em mais de 100 anos. Para ela, a presença feminina em posições de liderança ainda é baixa. “Vemos muitas ‘primeiras’: primeira diretora, primeira CEO. Mas faz parte do processo. Logo vamos ser muitas.”

Hoje, trabalha na área de implantação de infraestrutura rodoviária na Motiva, empresa de infraestrutura de mobilidade . Na equipe, quatro dos seis integrantes são mulheres. “Eu tenho o apoio delas.”

O vice-presidente do Crea-SP, Fernando Rosa, diz que o conselho tem buscado ampliar a participação feminina na engenharia por meio do Programa Mulher. A entidade afirma que investe em iniciativas de capacitação e apoio a mulheres em início de carreira.

“Em 2025, mais de 25 mil pessoas foram impactadas por ações como capacitações e palestras em universidades e escolas, com foco em engajar mais mulheres e meninas nas profissões tecnológicas.”

A preocupação, porém, não fica restrita à sala de aula. A engenheira civil e de segurança do trabalho Pollyana Ferraz, 38, relata que foi demitida de um estágio após a decisão de um gestor de não manter mulheres em obras. A justificativa era de que a presença feminina “desconcentrava” os trabalhadores.

Depois do episódio, diz que passou a adotar postura rígida no ambiente profissional. “Meu apelido é general.”

Antes de cursar engenharia, Pollyana trabalhava como técnica de segurança e se aproximou da área ao observar o trabalho de uma engenheira. “Eu já fazia o meu serviço e ficava ao lado dela vendo como tudo funcionava.”

A decisão de ingressar no curso veio junto com a irmã, para dividir a rotina de trabalho e estudo. Com a formatura antecipada da irmã, passou a acompanhar sua trajetória no mercado. “Ela ia onde a empresa precisasse, sem restrição. Eu fui seguindo o mesmo caminho.”

Ela afirma reconhecer que não é a realidade da maioria. Ainda assim, nas obras de rua, encontrou um tipo de proteção inesperada. Diante de assédios de pessoas de fora, eram os próprios funcionários que coordenava que intervinham. “Quando eu tava na rua e passava alguém mexendo, eles falavam: ‘Olha o respeito, você não está vendo que ela está trabalhando?’”

Fonte: redir.folha.com.br
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