A irracionalidade nos move, mensagem da qual Freud foi arauto. Hoje, com a perplexidade diante de terraplanistas e antivax, não há quem desminta o psicanalista vienense (à exceção dos próprios negacionistas, claro). Isso explica por que, mal dadas todas as críticas à Copa do Mundo de Futebol e à atual seleção brasileira, algo ainda acontece no nosso coração.
De um lado, temos a Fifa, acusada de continuar a operar sem transparência mesmo após o Fifagate; criticada por se sujeitar a interesses políticos/comerciais nada esportivos; condenada por passar a régua nos direitos humanos para expandir negócios quando lhe convém. Sua passagem por países pobres não traz nada além de uma bolha de ganhos, para alguns poucos, que mal compensa os gastos. Enfim, uma máquina de fazer dinheiro com zero escrúpulos, onde o fair play não tem vez.
De outro, a atual seleção brasileira, com jogadores fomentando a praga das bets que destrói vidas e famílias; sem honrar a pensão dos filhos; desrespeitando suas companheiras no melhor estilo boylixo; ostentando os milhões que ganham de forma obscena e alienada. Estão mais preocupados em desfilar o luxo que o mau gosto é capaz de comprar do que jogar para valer, ressentidos com as altas expectativas do público.
O injustificado circo em torno deles faz de Marta, de Formiga e de toda a seleção feminina o grande exemplo de quem ainda entende que jogar é mais do que fazer publi. Sabemos que a Fifa é esse poço de corrupção e más práticas políticas e que dessa seleção só dá para admirar algumas jogadas individuais, mas ainda assim sucumbimos a torcer por ela.
A pessoa pode até não gostar de futebol, mas, quando se trata da seleção que leva o nome do país, estamos diante de outro fenômeno. O reconhecimento deste descalabro convive com a subida da temperatura emocional diante do evento. Primeiro, em tempos de polarização, esse ainda é um dos raros momentos nos quais o brasileiro imagina que, do Oiapoque ao Chuí, encontraria alguém torcendo pelo mesmo que ele.
Segundo, para nós trata-se do momento em que somos reconhecidos por nações que costumam ser mais prestigiadas do que nós, até por nós mesmos. Compensação pela pecha de subdesenvolvidos que a história da colonização nos legou. Ufanismos à parte, só podemos falar mal do Brasil na condição de reconhecermos a história de violência e superação que nos trouxe até aqui e os países que por ela são responsáveis. Menos que isso é síndrome de Estocolmo.
Outra questão é que essa seleção moralmente capenga que hoje nos representa também representa as que vieram antes dela, mesmo sem lhes fazer jus. Não à toa estamos sendo bombardeados por imagens emocionantes de torneios anteriores.
Pertencimento histórico, reconhecimento de valor, identificação com o talento e a garra, e paixão antiga formam o caldo que não deixa o torcedor em nós arrefecer. Ou, ao menos, o deixam sempre prestes a reacender.
A camisa verde-amarela é nossa e não pode ser cooptada pela polarização, pois o justificado mau humor vai até a hora do gol, momento no qual o grito, contrariando todo bom senso, revela que nossas origens marcam para sempre nossas paixões. Freud sabia do que estava falando.







