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Não discuta o que um bom homem deve ser; seja um

Não discuta o que um bom homem deve ser; seja um
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 13/06/2026 às 13:26

Em tempos de Copa do Mundo, com o planeta inteiro hipnotizado pela bola, mulheres adultas andam obcecadas por outro tipo de esporte. Este não tem placar na TV nem narradores apaixonados, mas envolve um time de hóquei e mobiliza horas de puro delírio hormonal e sociológico. Mulheres de 40 e 50 anos, vacinadas contra o romantismo barato e calejadas por divórcios e boletos, sofrem de uma febre coletiva por “Off Campus”. A série estreou há um mês no Prime Video, adaptada dos romances juvenis da canadense Elle Kennedy, e já virou a produção mais assistida da plataforma.

De tanto ouvir amigas inteligentes, com repertório, anos de terapia nas costas, falarem do fenômeno com os olhos brilhando, resolvi ceder. Dei o play esperando o pior. E o começo cumpre a promessa: morri de tédio no primeiro episódio. O enredo é mais manjado que a escala do voo Rio-São Paulo. Temos o clássico jogador de hóquei universitário, um gostoso padrão que vai mal nas notas e precisa de reforço para não ser jubilado do time. E a pobre nerd que aceita dar aulas em troca de um namoro de fachada para causar ciúmes no músico deprimido que a ignora. É o clichê que Hollywood requenta desde os anos 1990.

No entanto, o que tinha tudo para ser apenas mais uma distração previsível se transformou em algo perturbador. Não pela complexidade da trama, mas pelo choque de realidade. Aqueles garotos de vinte e poucos anos da ficção dão um banho de inteligência emocional nos marmanjos barbados que habitam os aplicativos de relacionamento ou as mesas de bar do Baixo Gávea e de Santa Cecília.

O jogador de hóquei da telinha não é o ogro machista que a cultura pop nos ensinou a esperar. Ele entende o conceito de consentimento porque seus amigos também sabem do que se trata. Respeita os limites da parceira, ouve, valida sentimentos e, pasme, dialoga. Quando a namorada não atende ao telefone, ele não surta, nem a persegue. Ele espera. Diante do analfabetismo afetivo generalizado que assola a ala masculina na vida real, onde homens de 40 anos somem sem dar explicações ou entram em pânico se a mulher demonstra o mínimo de independência, os meninos do hóquei parecem seres de outra galáxia.

Mas que fique claro, a obsessão das mulheres maduras pela série não é só pela maturidade afetiva. Há um forte apelo carnal. Os personagens são deliciosos, gatos, respiram (e fazem) sexo, são sedutores e bem resolvidos com seus desejos, apesar de seus traumas. Sim, eles têm traumas. A diferença é que tudo isso vem embalado em inteligência emocional. E é a embalagem que torna o produto irresistível. As garotas da história acompanham o ritmo, sabem exatamente o seu valor. Não sofrem da velha neurose de escolher entre a carreira promissora e o namorado —para elas ter os dois é básico. A sexualidade feminina é livre de qualquer culpa, apesar dos dramas e pesares vividos.

O sucesso da série entre mulheres que já abandonaram a juventude é o sintoma de um cansaço crônico. Estamos exaustas de homens infantis que esperam receber um manual de instruções para se comportarem como adultos funcionais na cama e no afeto. Mas se quiserem um curso, essa série é um intensivo que os homens deveriam ser obrigados a fazer. Uma frase atribuída ao imperador Marco Aurélio resume o recado de “Off Campus”: não perca tempo discutindo o que um bom homem deve ser. Seja um.

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Fonte: redir.folha.com.br
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