Entre o sujeito que “deveríamos” amar e aquele que elegemos existe o abismo e o espanto de nunca saber ao certo o que nos une ao outro. Pode ser pura repetição do trauma dos primeiros encontros, pode ser justamente aquilo que nos separa e cura deles. Estamos condenados a buscar a reedição de um prazer do qual quase nada sabemos e que pode ser destrutivo ou libertador. Geralmente uma combinação dos dois.
O amor entre humanos é da ordem da necessidade, o que gera embaraço de saída. Ele vem do fato de que não há nenhuma garantia de que quem nos recebe nesse mundo se apaixone por nós. Que haja alguém que deixe uma considerável cota de libido, espaço, tempo, grana ou sono no altar da parentalidade é imponderável.
O amor que nos constituiu vem com maior ou menor intensidade, com mais ou menos ambivalência —nunca inteiramente sem— e nos marca para sempre. Vamos buscá-lo nas relações que o sucedem de forma repetitiva. Parte das marcas iniciais é inconsciente e deixa um ponto cego libidinal, que vai se apresentar nas escolhas amorosas incompreensíveis que fazemos ao longo da vida.
Outro embaraço se apresenta da dissociação entre amor e desejo. Ao contrário da cartilha rezada pela família burguesa, amor e desejo podem até se unir, mas não por ordem da vontade consciente. São os caminhos insondáveis que provam que somos regidos por forças que nos dominam, não o contrário. Nos resta decidir o que fazer com essas forças e nos responsabilizarmos pelas consequências dessa decisão.
É o que vemos de forma didática na série “DTF St. Louis” (HBO, 2026), de Steven Conrad. A crise de meia-idade dos personagens escancara a finitude, que deve ser respondida com Eros ou com o abraço da morte. O desejo e o amor estão do lado de Eros. O desejo não busca apenas satisfação, mas que permaneçamos no mundo dos vivos. Desejar é o que importa, o que se deseja é contingente e fugaz.
O colapso do personagem encarnado por Jason Bateman é um ponto altíssimo da série e um momento recorrente na clínica. Forrest reconhece que conquistou tudo que acreditava desejar: casa, família, filhos, trabalho, mas não para de pensar que pode morrer sem saber como é transar na água. Pode ser ruim, diga-se de passagem, mas ele quer tirar suas próprias conclusões de uma experiência que formulou como um desejo. O amor está alhures, na amizade sem desejo, com Floyd.
A obra acerta ao trazer a questão da masculinidade para o centro, sem deixar de criar uma personagem feminina inesquecível. Carol realiza sua fantasia: fazer-se de objeto para Forrest, o que não significa responder à demanda masculina, mas ao seu próprio desejo. Ela não ama Forrest, amor é outro departamento.
Para bagunçar ainda mais o coreto de amores e desejos, voltou em cartaz “A Casa dos Budas Ditosos“, de João Ubaldo Ribeiro, com esse patrimônio artístico que é Fernanda Torres. Ali, desejo e gozo (a versão do prazer que conjuga sofrimento) levam o público ao delírio. O amor, quando aparece, é incestuoso, diga-se de passagem, bem ao gosto de Nelson Rodrigues. Ali também Tanatos deixa sua marca, claro, anunciada pela personagem e que a leva a dobrar a aposta em Eros.
Entre o amor, o desejo e o gozo, encontramos as forças para resistir à apatia mortífera que nos cerca.







