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Cotidiano

‘Você só existe por causa deles’

‘Você só existe por causa deles’
Imagem/Divulgação Site: Folha de SP
Publicado em 22/05/2026 às 14:32

Quando notei que o assunto da chegada dos portugueses e dos italianos ao Brasil, no final do século 19, entediava minha filha Rita, apelei para a incontestável vaidade da modernidade líquida e mandei um “Você só existe por causa deles”. Renunciei provisoriamente a algumas palavras mais duras das lições escolares e comecei a lhe contar a história dos seus antepassados.

Para tal, primeiro fizemos uma visita ao Museu da Imigração, na Mooca, e depois passei três horas ao telefone com a minha tia Ivone, a única da família com memória excelente e paciência exemplar para o assunto. Na fala dela são nítidos o humor e o encantamento ao retratar detalhes da sua convivência com minha bisavó e minha avó.

Nunca vou esquecer essa conversa. Chorei quando desligamos, sentindo uma saudade avassaladora da minha infância e de conviver com as pessoas que já eram –só mais tarde eu entenderia– a preciosidade que eu por vezes busquei na diferença e na distância.

Por causa do passeio ao museu (as caminhas em que os imigrantes dormiam, a infinidade de entrevistas em vídeo, as curiosidades sobre a comida, as fotos da chegada à hospedaria, a maria-fumaça), Rita voltou aos livros achando tudo divertido e interessante. Hoje mesmo, no café da manhã, falou “abolição do tráfico negreiro” e “trabalho nas lavouras ou fábricas” como se fofocasse sobre colares da amizade na hora do recreio. Um dia ainda discutiremos sobre os horrores da eugenia.

Joaquim conheceu Victoriana entre imensas plantações de uvas na cidade histórica de Lamego, às margens do rio Douro. Se apaixonaram (ela mais do que ele), tiveram uma filha e foram morar juntos (sem se casarem, o que achei moderno, mas eles eram somente muito pobres). Só que Joaquim resolveu seguir os passos do pai e dos irmãos e migrar para o Brasil no final do século 19, fugindo da crise política e agrária e em busca de um trabalho como pedreiro. Construíram várias casinhas entre os bairros do Brás e do Tatuapé e, só agora me caiu essa ficha, esse é o motivo pelo qual meus vizinhos eram meus parentes.

Pouco depois de se ver sozinha com uma filha de cinco anos, Victoriana notou que esperava mais do que a próxima carta do amado: esperava também outra criança, minha avó. Ela então triplicou suas horas de trabalho entre as parreiras, juntou dinheiro e, grávida de oito meses, comprou um bilhete para o navio (minha tia conta que veio no porão, na pior acomodação possível). Minha avó nasceu chegando ao Brasil.

Ela estava grávida de oito meses quando entrou no porão de um navio rumo ao desconhecido! Desde sábado passado, essa é a história (real) que minha filha me obriga a recontar antes de ela dormir. Daí digo que, quando eu estava grávida de oito meses, ficava deitada bem quentinha na minha cama, e pensamos na minha bisavó como uma super-heroína, a mulher mais corajosa de todos os tempos.

Agora combinamos de ir à paróquia São José do Maranhão para visitar uma imagem gigante de Nossa Senhora de Fátima. Minha bisavó trouxe a santa de navio e dormia colada a ela. Antes de morrer, pediu a Ivone, sua neta, que não deixasse a santa ser leiloada entre os familiares –o que causaria brigas–, mas a levasse a essa igreja para fazer milagres. Não sou exatamente católica, porém sou exatamente deprimida, e ajuda nunca é demais. Ritinha tem esse nome porque minha avó era devota de santa Rita. Foi um fim de semana, pode-se dizer, abençoado.

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Fonte: redir.folha.com.br
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