No templo Jogyesa, em Seul, um pequeno robô humanoide vestido com trajes monásticos participou de uma cerimônia budista e recebeu o nome de Gabi. A cena parece curiosa, talvez cômica, mas toca numa das perguntas centrais do nosso tempo: máquinas podem pensar, sentir, querer?
Apresentado como o primeiro “monge robô” da Coreia do Sul, ele foi incorporado simbolicamente pela Ordem Jogye, a maior tradição budista do país, em uma iniciativa que combina ritual, tecnologia e tentativa de aproximação com os jovens. Gabi recebeu preceitos adaptados à inteligência artificial, incluindo compromissos éticos como não causar dano e não enganar.
O ponto não é saber se Gabi possui uma alma digital escondida sob os circuitos. Tampouco se a inteligência artificial “sente” como um humano. Essa obsessão pela interioridade —existe ali consciência, sofrimento, desejo?— reduz o problema a uma alternativa pobre: ou a máquina é uma pessoa, ou é apenas uma coisa.
A experiência histórica e antropológica mostra que existe um vasto território entre esses dois polos.
Animais, imagens, relíquias, estátuas, máscaras, arquivos, objetos rituais e monumentos nunca foram simples coisas inertes. Eles produzem efeitos. Fazem pessoas se ajoelharem, lutarem, lembrarem, obedecerem, temerem ou mudarem de ideia.
Um documento de arquivo pode decidir o destino de uma família. Uma bandeira pode unir uma comunidade inteira. Uma estátua derrubada pode reorganizar o passado. Um animal sagrado pode estruturar relações sociais. Nada disso exige que esses entes pensem como humanos. Exige apenas que participem de redes de ação.
É isso que as ciências humanas chamam, de modo amplo, de “agência”: a capacidade de entidades não-humanas produzirem efeitos sociais. A noção não significa que objetos, animais ou robôs tenham vontade própria no sentido humano. Significa que a ação social é raramente produzida apenas por pessoas, mas emerge de teias de relações.
Um rei antigo não governava sozinho: precisava de palácios, selos, inscrições, rituais, imagens, genealogias e corpos treinados para reconhecer sua autoridade. Uma divindade antiga não “existia” socialmente apenas como crença interior: existia também em templos, estátuas, oferendas e procissões. A matéria produz efeitos.
As religiões sempre operaram por meio de mediações materiais: imagens, relíquias, livros, máscaras, roupas e templos.
Gabi deve ser entendido nesse registro. O robô não precisa meditar para produzir efeitos religiosos. Basta que seja colocado em uma cerimônia, vestido como monge, filmado, comentado, compartilhado, aceito por alguns e ridicularizado por outros. Sua agência nasce da rede que o envolve: monges, programadores, jornalistas, fiéis, espectadores, algoritmos de circulação e debates públicos sobre tecnologia. Ele age porque faz os humanos agirem.
A pergunta “a IA sente?” é importante, mas pode funcionar como distração. Enquanto discutimos se as máquinas têm consciência, elas já interferem em decisões escolares, diagnósticos médicos, julgamentos morais, seleções profissionais, mercados financeiros, relações afetivas e práticas religiosas. A questão urgente não é apenas se há alguém “dentro” da máquina. É quem será responsabilizado pelos efeitos que ela produz fora dela.
O caso do robô budista é interessante porque emerge de uma tradição religiosa que nunca dependeu fortemente da ideia de uma alma individual fixa e soberana. Nesse contexto, o humanoide nos obriga a pensar sobre como humanos e artefatos técnicos podem coexistir em práticas de disciplina, atenção e compaixão.
Mas há também um risco. Ao teatralizar a máquina como monge, pode-se esquecer que a IA não é uma entidade neutra, descida do céu tecnológico. Ela tem fabricantes, custos, interesses, bases de dados, cadeias de trabalho e impactos ambientais. O encanto pelo robô que reza não deve apagar o mundo material que o torna possível.
Talvez Gabi não pense, mas ele nos obriga a pensar. A novidade da inteligência artificial não é ter inventado a agência não-humana. É tê-la colocado diante de nós com rosto, voz e conexão wi-fi.







